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Não era uma
imagem bonita. As paredes da casa eram rústicas, sem acabamento e com tijolos a
mostra. A porta de madeira, vermelha, velha, descascada em diversos pontos por
tamanhos pouco expressivos, ficava no centro da fachada entre duas janelas. O
telhado estava prestes há completar meio século, notadamente em estado frágil e
sujo, parecia haver muito tempo que não recebia um alento dos céus. Estava
rodeada por túmulos marcados por cruzes brancas, a maioria com nome, data
natalícia e fúnebre pintados à tinta preta. Sentada nos degraus da escada, que
dava acesso à varanda, uma mulher bem velha, pano vermelho enrolado na cabeça,
trajando regata marrom e uma saia longuíssima de igual cor, pregava dois
pedaços de madeira, um transversalmente sobre o outro, apoiando-os sobre um
caixote.
Essa era a
cena que o rapaz se deparou quando Sebastião, ao puxar a rédea, deu a ordem
derradeira para o cavalo. Sentiu uma grande tristeza invadir o peito, mas como
recebia um enorme favor evitou deixar transparecer o desconforto que o lugar
lhe provocara.
O senil
virou a cabeça para o lado do acompanhante:
- Vem.
Aquela ali é minha muié. Vou lhe apresentar.
O velho
pulou da carroça. O jovem ficou de pé e olhou em torno: campos e mais campos.
Somente adiante do cavalo era possível visualizar algo díspar da planície
verde, um alto muro sobreposto com arame farpado.
A casa
ficava do lado direito da estrada e há alguns metros.
Saltou do
cabriolé. Caminharam calados em direção ao imóvel. Para romper o silêncio e
conhecer mais o ambiente que frequentaria, e sobre a pessoa que se dispôs a
ajudá-lo, o moço resolveu formular perguntas:
- Vocês
moram sozinhos? - Indagou.
- Sim, nós
e os defuntos – Respondeu o ancião dando uma risadinha – Tem medo?
- Nada! -
Respondeu balançando a cabeça para acentuar a contrariedade que a palavra usada
transmitia.
- Vai ter
medo de gente morta pra quê? Né?
“Aposto que
mandará aquele velho lugar comum sempre usado pra demonstrar coragem e
descrença quanto ao sobrenatural.” Pensou o jovem.
- Tem que
ter medo dos vivos! - Concluiu o envelhecido.
“O que eu disse?
Não sei ainda quem sou, mas já sei que me incomodo com frases feitas.”
Estavam na
metade do caminho, em meio às tumbas sinalizadas pelas cruzes de madeira. O sol
abatera e generosas rajadas de vento aliviaram o clima. O mancebo continuou:
- Que lugar
é aquele ali? - Perguntou apontando para a fortificação à esquerda.
- Ali, é a
Vila de Coroné Rodrigues, antiga Vila da Mata. Mudou de nome quando o coroné
morreu anos atrás e, aí, fizeram uma homenagem pra ele.
- Ah é? Ele
era muito querido, então?
- Era muito
respeitado, sabe? Mandava matar um monte de caboclo na época dos militar.
Quando morreu, eles ainda tavam nu puder, aí, os coronés resolveram fazer
homenagem ao falecido.
- Ah...
“Como não homenagear um cara desses?” Pensou ironicamente o estranho.
A velha
senhora observava os dois se aproximando. Seu olhar era de curiosidade, jamais
vira aquele homem. “Sebastião deve ter arranjando outro ajudante. Vamos ver
quanto tempo dura.” Pensou. Inesperadamente o mais velho parou como se
lembrasse de algo muito importante, estampando uma ligeira expressão assustada.
- Peraí –
Falou olhando para o estranho que andou mais dois passos antes de se virar –
Cumé que te apresento a minha patroa? Você num sabe nem o seu nome - O
questionamento deixou o estranho reflexivo. É verdade. Era uma situação
inusitada com muitas perguntas sem respostas e em nada surpreenderia se
levantasse desconfiança, afinal, amnésia é coisa de novela e filme, certo? Pelo
menos, recordava vagamente de ter visto casos desse tipo só na ficção. Notou
ser engraçado poder lembrar esses tipos de coisas e não conseguir lembrar nem a
sua alcunha. Isso só fazia gerar mais perguntas. Mas teria tempo de pensar
nelas mais tarde. Tinha uma questão para resolver. Depois de um breve momento,
esticou os músculos faciais e a linha da boca ficou mais cumprida. Pensou em um
início humorado para anular parcialmente o impacto que a estranha história
provavelmente causaria. Percebera simplicidade no modo de ser no senhor que o
encontrara. Era bem vivido, como seu físico expunha, mas carregava um ar
inocente.
- Ah... Sei
lá... Me chama de...”O Cara-Que-Achei-No-Mato”. Algo assim.
Sebastião
balançou a cabeça em concordância – É... De início tá bão. Até eu contar a
história toda. Depois arranjamos um nome pra você, tá bão?
- Ah, sem
problema. Ok.
Continuaram
caminhando. Conforme se aproximavam da casa, mais deteriorado era o estado das
cruzes de madeira, sujas e apodrecidas.
Chegaram até a velha. Seu rosto moreno parecia um mapa, povoado de
linhas grossas. Tinha um olhar cansado. O idoso dirigiu-se a esposa.
- Rosa,
esse aí é o Cara-Que-Achei-No-Mato. Cara-Que-Achei-No-Mato essa é Rosa, minha
muié.
Os dois
cumprimentaram-se com um aperto de mão. Ele sorriu tentando conter a risada
diante da apresentação singular realizada pelo mais vivido, que a fez em tom
sério, deixando a cena mais engraçada. A idosa o cumprimentou expressando
incompreensão. Questionou:
- Oxi?! Que
história é essa?
Do riso ao
choro. Do calor ao frio. Da velocidade absurda a sonolência. Procedeu dessa forma
a mudança de estado de espírito de Rosa ao tocar na mão do rapaz. Quanto tempo?
Um segundo? Um milésimo? Menos? Não importa. Basta saber que a mudança de humor
da dona foi súbita ao ter esse primeiro contato. Seus traços faciais ficaram
inexplicavelmente severos, um desconforto pareceu lhe atingir. Abandonou
bruscamente a mão do homem achado. Este se perguntou se fez algo errado. Será
que apertou com força desmedida aquela antiga mão? A esposa pediu mais
explicações ao marido:
- Que
história é essa, Sebastião?! - Perguntou com aspereza.
Ele fez o
relato. Ela ouviu demonstrando as reações naturais de quem escuta algo de tal
natureza pela primeira vez. Com questões a cada ponto sem nó, afirmando e
reafirmando a anormalidade da situação. Dirigiu poucas palavras ao estranho,
mal o olhara depois do cumprimento. E manteria essa atitude fria durante todo o
final de dia. O jovem ficou ínfimo tempo concentrado nessa nova questão, já
tinha muitas outras para pensar. Mas a velha não esqueceria tão cedo à sensação
sentida naquele breve contato. Ficaria a noite inteira sem pensar em outro
assunto.
Este é o segundo capítulo do livro Angústia na Cidade do Caos: Crônicas de uma Era Indecente. O primeiro você pode conferir aqui: http://encurtador.com.br/hipEX
Pode-se adquirir a estória completa aqui: http://migre.me/vH9mN
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