Não era um
dia fácil. A rodovia que ligava as regiões norte e sul estava tomada por um mar
de metal. Fileiras de carros empoeirados, a maioria de cores sem graça, frias,
opacas. Motoristas e passageiros sofriam a novidade moderna provocada pelos
grandes centros urbanos: ondas de calor. Litros de gasolina eram perdidos para
manterem os ares-condicionados ligados. Ambulantes, residentes na comunidade
próxima a rodovia, aproveitavam o inusitado ponto de vendas para faturarem uns
trocos. Ofereciam, em troca, água engarrafada, sorvetes, refrigerantes, sucos
de marcas conhecidas ou jamais vistoriadas pela Anvisa. Os motociclistas
passavam em velocidade inferior a habitual, mas, ainda assim, velozes o
bastante para provocarem inveja nos motoristas estáticos.
Tão caótica
que a concentração de pessoas em espaço tão reduzido era a miscelânea de sons
em diversos volumes e estilos. A buzina breve, porém impactante, a voz melódica
do radialista, as batidas ágeis e frenéticas da eletro music, a alegria do samba, o protesto do rock, a obscenidade do funk, a descrição certeira do rap, as vozes ásperas e contundentes dos
ambulantes, as queixas das crianças com fome, a fúria incontida dos adultos, os
ruídos da carroça e o relincho do cavalo.
Sim, é
estranho ouvir esses sons em um mundo pós-Ford,
principalmente em cenário tão Fordista
e, por isso, não é difícil imaginar o espanto e a surpresa dos motoristas
próximos. Algo tão rudimentar, simples, barato, antiquado, consegue roubar a
cena em meio a maquinarias produzidas laboriosamente por várias pessoas, em numerosas
etapas, e vendidas a preços largos. Uma carroça na via pública. Um transporte
de madeira entre o mar de metal, na hora do rush.
Via-se que
já vivera muitas estações e enfrentara diversas condições climáticas.
Aparentava fraqueza. A cor amadeirada, com o passar do tempo, ficou
empalidecida. Se fosse uma pessoa, seria um homem de idade avançada com ossos
bem frágeis. Quadro adverso se pintava ao olhar para o condutor. Sim, já não
era mais um garoto, o cabelo começava a rarear e esbranquiçar, mas o seu olhar
sisudo, a pele morena acostumada a banhar-se dos raios solares por horas a fio
e a firmeza de suas mãos ao segurar a rédea do cavalo, sem dúvida, demonstrava
que seria um plaustro antigo, contudo melhor conservado, suportando carga
maior, por exemplo, do que os quilos de madeira movidos pela caleça real.
A fileira
de carros avançou após um longo tempo. Chegou a um trecho com desvio à esquerda. Uma estradinha de terra cercada por árvores seculares
por um lado e a relva dos campos, que se estendiam por quilômetros, pelo outro.
O cavalo amarronzado, olhar tristonho, dentes escuros e esburacados, desviou
por esse caminho conforme orientação de seu dono.
Sebastião,
até aquele ponto, aguentou sem grandes dificuldades a jornada sob o forte calor.
O suor escorria no rosto, entretanto não se sentia exausto. Ele foi até o marceneiro,
conhecido seu, para pegar pedaços de madeira que fossem ser inutilizados.
Também foi até o lixão da cidade com o intento de garimpar. Por fim, passou na
recicladora mais próxima efetuando outra coleta.
Boa parte
do trajeto andou introspectivo, preocupações ocupava-lhe a cabeça. No último quilômetro que percorria para
retornar até a sua casa, em Coronel Rodrigues, vila da maioria dos ambulantes
na estrada (conhecida como Rodovia “Pague Todos os Seus Pecados”. Fruto de zombaria
popular evidentemente, contudo ficou tão marcada que poucos a chamavam pelo
nome oficial: Rodovia Padre Fernandes), seus pensamentos não eram diferentes,
buscava soluções:
“Ôh! Meu
sinhô. Como vou conseguir enterrar aquela gente toda? Preciso de ajuda. Se bem,
que ajuda até tenho, mas são uns quebra-gaio. Não vão ficar fazendo isso pra
sempre, só se eu der um cascalho e nem pra mim tenho. A parentada pode até querer
ajudar, mas pedindo desconto, ou, então, nem pagar. A terra num é minha, todo
mundo sabe. O pessoal paga por causa d’eu fazer o serviço pesado, sou bem
relacionado com todo mundo e faz parte do meu sustento. E porque é mais barato
do que enterrar em cemitério oficial com pedrinha bonitinha. Se eu não der
conta do serviço, vão fazer por mim, aí, eu tô lascado.”
“Aconteceu
tudo de uma vez só. O Gilvã pediu as contas, arranjou trabaio em indústria no
outro canto da cidade, assim, sem mais nem menos, de um dia pro outro. Na mesma
semana estourou uma confusão dos diabos. Tiro pra todos os lados, briga de
gangue, guerra mesmo. E guerra é assim: o que mais tem é morto, a maioria
pobre. Eu não arranjei ninguém pra botar no lugar de Gil. Tô trabaiando feito
um condenado, com dor em tudo que é lugar. Também, não sou mais nenhum muleque.”
A frustração recobriu o semblante do velho nesse momento. “Num sei o que vou
fazer. Os cabras que me apareceram pro serviço ou são drogados, morrem feito
baratas e me dão o trabaio de enterrá-los, ou são frouxos demais. Desse jeito,
vou ser obrigado a pedir um pouco a mais do bolo da maconha pro JB.” Fez uma
rápida careta de repúdio a ideia surgida. “Vixi Maria! É bom nem ficar pensando
nessas coisas.”
Já podia
ver o telhado antigo, telhas cor de tijolo, e as cruzes de madeira das tumbas,
que circundavam a pobre casa, cingidas de branco. Nesse trecho, ambos os lados
da estrada estavam tomadas por gramíneas. Havia sons emitidos por diversos
insetos se misturando aos passos do cavalo e das rodas da carroça que marcavam
a terra.
Absorto em
seus pensamentos, Sebastião desviou o olhar, fixado na trilha até aquele
momento, para o capinal a sua direita. Algumas coisas são difíceis de explicar
ou entender, quando ocorrem normalmente colocamos na conta do destino. Ele
enxergou, por entre as gramináceas, um tênis branco. Conforme o cabriolé
adiantava, mantinha o olhar fixo no objeto. Percebeu, em dado momento, haver
algo a mais do que um solitário tênis jogado na mata. Parou a sege puxando a
rédea. “Pode ser alguém conhecido.” Pensou. Saltou do veículo, suas alpercatas
foram cobertas, momentaneamente, pela poeira que se levantou abrupta. A camisa
abotoada, cor predominante azul céu e listrada na horizontal por rosa salmão,
tinha o suor marcando nas costas, porque ficou longo tempo em contato com o
encosto do carro.
Abriu
caminho usando os braços para afastar o mato. Andou cautelosamente. Chegou até
o corpo. Encontrou-o estirado de forma estranha. Não era possível identificar um padrão na
direção dos membros. Braços, mãos, pernas e pés eram discordantes sobre o rumo
a seguir. O capim, que o revestia, impedia total visualização do rosto. Era um
homem. Jovem. Devia ter uns dezenove, vinte anos. Pele branca, cabelo preto,
vestia uma camisa polo, negra e lisa, e uma calça jeans azul. Tinha um machucado na testa, mas já em casca.
“Xiiii!
Outro presunto. Mas esse num conheço. Não pode ser daqui. Mas eita...?!” O
jovem respirava. Estava tão convicto que encontraria um cadáver que de imediato
não percebeu e assustou-se ao constatar.
A princípio
é lógico pensar que o rapaz foi jogado nesse fim de mundo, na mata, contra a
sua vontade, no entanto, com exceção do ferimento na testa, não havia lesão
corporal visível e principalmente: não havia sangue, tanto no chão como nas
vestes. “E se for um procurado se escondendo da pulícia? Pode achar ruim ser
visto. Posso tá me arriscando.” Conjeturou. Ponderou que o mais sensato seria
sair dali sem olhar para trás, porém outro pensamento o deixou indeciso. O
destino. E se fosse uma resposta dos céus para atender as suas preces? “Ele tá
sem arma.” Continuou meditando: “Mas pode ser uma arapuca. Os vendedor passam
aqui com os bolsos cheios.” De súbito, lembrou-se da carroça, voltou o olhar
para direção desta, encontrava-se intacta. Ficou dois minutos na indecisão, com
o pé esquerdo apontando para o corpo e o direito para o veículo.
Seguiu o
caminho do pé direito. Saiu da mata e dirigiu-se ao transporte rudimentar.
Mosquitos rodeavam o cavalo incomodando-o. Cansado e com sede começava a ficar
arisco. Sebastião marcou o solo com a alparca, notou um detalhe curioso: “Um
solão desses e tá branquinho, branquinho.”
Pegou um
pedaço de pau do aditivo que deslocava. Voltou a ficar diante do corpo, escondeu
a madeira por detrás das pernas. Deu um leve chute no pé do rapaz e gritou:
-
Oh,
rapaz!
Sonolento,
o jovem proferiu um resmungo e abriu os olhos para, logo após, voltar a
cerrá-los com força, franzido a testa ao sentir a claridade ardente do sol.
Botando a mão direita sobre a testa, protegeu-se da luz e sentou. Tentando
apoiar-se, pôs a mão esquerda no chão e percebeu que acordava em terreno
arenoso. Ficou sentado por uns instantes para os olhos se acostumarem à luminosidade.
Percebeu, por fim, o capim ao seu redor e prestou atenção no homem a sua
frente.
-
Quem
é você garoto? - Indagou Sebastião - atento a cada movimento do jovem.
-
Eu...
- interrompeu a fala, olhou interrogativo para a terra, balançando
vagarosamente a cabeça. Após alguns instantes, de maneira simultânea, paralisou
todo o corpo, parecendo congelar, e prendeu a respiração a soltando em seguida;
espantado, fitou o velho –... Eu não sei!
-
Não
sabe?! - Perguntou Sebastião com um misto de desconcerto e desconfiança - De
onde você vem? Como veio parar aqui?
O rapaz
mirou o olhar para os lados, freneticamente, tentando ver algo que o fizesse
lembrar alguma coisa. As perguntas o deixaram preocupado por perceber ignorar
as respostas.
-
Eu
não sei. Eu não sei cara! Juro que não sei - Falava com as mãos na cabeça -
Estou tentando lembrar – Fixou a visão insatisfatoriamente para Sebastião – Nada
- Abaixou as mãos, estava visivelmente abalado - Que merda! Que coisa horrível.
Como posso não saber quem sou?! É tão estranho, é tão angustiante, é horr... –
sentiu uma forte ânsia de vômito. Aquietou-se. O estômago embrulhou, despejou
de supetão um líquido amarelado da boca. Susteve as duas mãos no solo. Ficou de
quatro.
Sebastião
assistia a cena: “Deve estar de bucho vazio. Só botou água pra fora.” A
expressão do rosto do rapaz era horrenda, os músculos da face contorciam-se,
ficou vermelho e suava em abundância.
Após um período sob essas condições, começou a emitir sons horripilantes
e longos, fazendo tremenda força para vomitar. Até aquele instante, o vômito
era inteiramente líquido, mas algo sólido entrou em contato com o chão. Era
negro e reluzente. “Mas que diacho é isso...?” Sebastião curvou-se de cócoras,
defronte ao rapaz que continuava padecendo. Pegou o elemento destoante
utilizando o indicador e polegar da mão esquerda. Usando a pressão das
falanges, tentou esmagá-lo. Não obteve sucesso. Trouxe o objeto até a altura
dos olhos e pasmou: “Minha nossa...!”
Era uma
bala.
*Este é o primeiro capítulo do livro Angústia na Cidade do Caos: Crônicas de uma Era Indecente.
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