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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Conhecendo o Terreno

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Não era uma imagem bonita. As paredes da casa eram rústicas, sem acabamento e com tijolos a mostra. A porta de madeira, vermelha, velha, descascada em diversos pontos por tamanhos pouco expressivos, ficava no centro da fachada entre duas janelas. O telhado estava prestes há completar meio século, notadamente em estado frágil e sujo, parecia haver muito tempo que não recebia um alento dos céus. Estava rodeada por túmulos marcados por cruzes brancas, a maioria com nome, data natalícia e fúnebre pintados à tinta preta. Sentada nos degraus da escada, que dava acesso à varanda, uma mulher bem velha, pano vermelho enrolado na cabeça, trajando regata marrom e uma saia longuíssima de igual cor, pregava dois pedaços de madeira, um transversalmente sobre o outro, apoiando-os sobre um caixote.
Essa era a cena que o rapaz se deparou quando Sebastião, ao puxar a rédea, deu a ordem derradeira para o cavalo. Sentiu uma grande tristeza invadir o peito, mas como recebia um enorme favor evitou deixar transparecer o desconforto que o lugar lhe provocara.
O senil virou a cabeça para o lado do acompanhante:
- Vem. Aquela ali é minha muié. Vou lhe apresentar.
O velho pulou da carroça. O jovem ficou de pé e olhou em torno: campos e mais campos. Somente adiante do cavalo era possível visualizar algo díspar da planície verde, um alto muro sobreposto com arame farpado.
A casa ficava do lado direito da estrada e há alguns metros.
Saltou do cabriolé. Caminharam calados em direção ao imóvel. Para romper o silêncio e conhecer mais o ambiente que frequentaria, e sobre a pessoa que se dispôs a ajudá-lo, o moço resolveu formular perguntas:
- Vocês moram sozinhos? - Indagou.
- Sim, nós e os defuntos – Respondeu o ancião dando uma risadinha – Tem medo?
- Nada! - Respondeu balançando a cabeça para acentuar a contrariedade que a palavra usada transmitia.
- Vai ter medo de gente morta pra quê? Né?
“Aposto que mandará aquele velho lugar comum sempre usado pra demonstrar coragem e descrença quanto ao sobrenatural.” Pensou o jovem.
- Tem que ter medo dos vivos! - Concluiu o envelhecido.
“O que eu disse? Não sei ainda quem sou, mas já sei que me incomodo com frases feitas.”
Estavam na metade do caminho, em meio às tumbas sinalizadas pelas cruzes de madeira. O sol abatera e generosas rajadas de vento aliviaram o clima. O mancebo continuou:
- Que lugar é aquele ali? - Perguntou apontando para a fortificação à esquerda.
- Ali, é a Vila de Coroné Rodrigues, antiga Vila da Mata. Mudou de nome quando o coroné morreu anos atrás e, aí, fizeram uma homenagem pra ele.
- Ah é? Ele era muito querido, então?
- Era muito respeitado, sabe? Mandava matar um monte de caboclo na época dos militar. Quando morreu, eles ainda tavam nu puder, aí, os coronés resolveram fazer homenagem ao falecido.
- Ah... “Como não homenagear um cara desses?” Pensou ironicamente o estranho.
A velha senhora observava os dois se aproximando. Seu olhar era de curiosidade, jamais vira aquele homem. “Sebastião deve ter arranjando outro ajudante. Vamos ver quanto tempo dura.” Pensou. Inesperadamente o mais velho parou como se lembrasse de algo muito importante, estampando uma ligeira expressão assustada.
- Peraí – Falou olhando para o estranho que andou mais dois passos antes de se virar – Cumé que te apresento a minha patroa? Você num sabe nem o seu nome - O questionamento deixou o estranho reflexivo. É verdade. Era uma situação inusitada com muitas perguntas sem respostas e em nada surpreenderia se levantasse desconfiança, afinal, amnésia é coisa de novela e filme, certo? Pelo menos, recordava vagamente de ter visto casos desse tipo só na ficção. Notou ser engraçado poder lembrar esses tipos de coisas e não conseguir lembrar nem a sua alcunha. Isso só fazia gerar mais perguntas. Mas teria tempo de pensar nelas mais tarde. Tinha uma questão para resolver. Depois de um breve momento, esticou os músculos faciais e a linha da boca ficou mais cumprida. Pensou em um início humorado para anular parcialmente o impacto que a estranha história provavelmente causaria. Percebera simplicidade no modo de ser no senhor que o encontrara. Era bem vivido, como seu físico expunha, mas carregava um ar inocente.
- Ah... Sei lá... Me chama de...”O Cara-Que-Achei-No-Mato”. Algo assim.
Sebastião balançou a cabeça em concordância – É... De início tá bão. Até eu contar a história toda. Depois arranjamos um nome pra você, tá bão?
- Ah, sem problema. Ok.
Continuaram caminhando. Conforme se aproximavam da casa, mais deteriorado era o estado das cruzes de madeira, sujas e apodrecidas.  Chegaram até a velha. Seu rosto moreno parecia um mapa, povoado de linhas grossas. Tinha um olhar cansado. O idoso dirigiu-se a esposa.
- Rosa, esse aí é o Cara-Que-Achei-No-Mato. Cara-Que-Achei-No-Mato essa é Rosa, minha muié.
Os dois cumprimentaram-se com um aperto de mão. Ele sorriu tentando conter a risada diante da apresentação singular realizada pelo mais vivido, que a fez em tom sério, deixando a cena mais engraçada. A idosa o cumprimentou expressando incompreensão. Questionou:
- Oxi?! Que história é essa?
Do riso ao choro. Do calor ao frio. Da velocidade absurda a sonolência. Procedeu dessa forma a mudança de estado de espírito de Rosa ao tocar na mão do rapaz. Quanto tempo? Um segundo? Um milésimo? Menos? Não importa. Basta saber que a mudança de humor da dona foi súbita ao ter esse primeiro contato. Seus traços faciais ficaram inexplicavelmente severos, um desconforto pareceu lhe atingir. Abandonou bruscamente a mão do homem achado. Este se perguntou se fez algo errado. Será que apertou com força desmedida aquela antiga mão? A esposa pediu mais explicações ao marido:
- Que história é essa, Sebastião?! - Perguntou com aspereza.
Ele fez o relato. Ela ouviu demonstrando as reações naturais de quem escuta algo de tal natureza pela primeira vez. Com questões a cada ponto sem nó, afirmando e reafirmando a anormalidade da situação. Dirigiu poucas palavras ao estranho, mal o olhara depois do cumprimento. E manteria essa atitude fria durante todo o final de dia. O jovem ficou ínfimo tempo concentrado nessa nova questão, já tinha muitas outras para pensar. Mas a velha não esqueceria tão cedo à sensação sentida naquele breve contato. Ficaria a noite inteira sem pensar em outro assunto.

Este é o segundo capítulo do livro Angústia na Cidade do Caos: Crônicas de uma Era Indecente. O primeiro você pode conferir aqui: http://encurtador.com.br/hipEX

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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Descoberta do Inaudito

Não era um dia fácil. A rodovia que ligava as regiões norte e sul estava tomada por um mar de metal. Fileiras de carros empoeirados, a maioria de cores sem graça, frias, opacas. Motoristas e passageiros sofriam a novidade moderna provocada pelos grandes centros urbanos: ondas de calor. Litros de gasolina eram perdidos para manterem os ares-condicionados ligados. Ambulantes, residentes na comunidade próxima a rodovia, aproveitavam o inusitado ponto de vendas para faturarem uns trocos. Ofereciam, em troca, água engarrafada, sorvetes, refrigerantes, sucos de marcas conhecidas ou jamais vistoriadas pela Anvisa. Os motociclistas passavam em velocidade inferior a habitual, mas, ainda assim, velozes o bastante para provocarem inveja nos motoristas estáticos.
Tão caótica que a concentração de pessoas em espaço tão reduzido era a miscelânea de sons em diversos volumes e estilos. A buzina breve, porém impactante, a voz melódica do radialista, as batidas ágeis e frenéticas da eletro music, a alegria do samba, o protesto do rock, a obscenidade do funk, a descrição certeira do rap, as vozes ásperas e contundentes dos ambulantes, as queixas das crianças com fome, a fúria incontida dos adultos, os ruídos da carroça e o relincho do cavalo.
Sim, é estranho ouvir esses sons em um mundo pós-Ford, principalmente em cenário tão Fordista e, por isso, não é difícil imaginar o espanto e a surpresa dos motoristas próximos. Algo tão rudimentar, simples, barato, antiquado, consegue roubar a cena em meio a maquinarias produzidas laboriosamente por várias pessoas, em numerosas etapas, e vendidas a preços largos. Uma carroça na via pública. Um transporte de madeira entre o mar de metal, na hora do rush.
Via-se que já vivera muitas estações e enfrentara diversas condições climáticas. Aparentava fraqueza. A cor amadeirada, com o passar do tempo, ficou empalidecida. Se fosse uma pessoa, seria um homem de idade avançada com ossos bem frágeis. Quadro adverso se pintava ao olhar para o condutor. Sim, já não era mais um garoto, o cabelo começava a rarear e esbranquiçar, mas o seu olhar sisudo, a pele morena acostumada a banhar-se dos raios solares por horas a fio e a firmeza de suas mãos ao segurar a rédea do cavalo, sem dúvida, demonstrava que seria um plaustro antigo, contudo melhor conservado, suportando carga maior, por exemplo, do que os quilos de madeira movidos pela caleça real.
A fileira de carros avançou após um longo tempo. Chegou a um trecho com desvio à esquerda.  Uma estradinha de terra cercada por árvores seculares por um lado e a relva dos campos, que se estendiam por quilômetros, pelo outro. O cavalo amarronzado, olhar tristonho, dentes escuros e esburacados, desviou por esse caminho conforme orientação de seu dono.
Sebastião, até aquele ponto, aguentou sem grandes dificuldades a jornada sob o forte calor. O suor escorria no rosto, entretanto não se sentia exausto. Ele foi até o marceneiro, conhecido seu, para pegar pedaços de madeira que fossem ser inutilizados. Também foi até o lixão da cidade com o intento de garimpar. Por fim, passou na recicladora mais próxima efetuando outra coleta.
Boa parte do trajeto andou introspectivo, preocupações ocupava-lhe a cabeça.  No último quilômetro que percorria para retornar até a sua casa, em Coronel Rodrigues, vila da maioria dos ambulantes na estrada (conhecida como Rodovia “Pague Todos os Seus Pecados”. Fruto de zombaria popular evidentemente, contudo ficou tão marcada que poucos a chamavam pelo nome oficial: Rodovia Padre Fernandes), seus pensamentos não eram diferentes, buscava soluções:
“Ôh! Meu sinhô. Como vou conseguir enterrar aquela gente toda? Preciso de ajuda. Se bem, que ajuda até tenho, mas são uns quebra-gaio. Não vão ficar fazendo isso pra sempre, só se eu der um cascalho e nem pra mim tenho. A parentada pode até querer ajudar, mas pedindo desconto, ou, então, nem pagar. A terra num é minha, todo mundo sabe. O pessoal paga por causa d’eu fazer o serviço pesado, sou bem relacionado com todo mundo e faz parte do meu sustento. E porque é mais barato do que enterrar em cemitério oficial com pedrinha bonitinha. Se eu não der conta do serviço, vão fazer por mim, aí, eu tô lascado.”
“Aconteceu tudo de uma vez só. O Gilvã pediu as contas, arranjou trabaio em indústria no outro canto da cidade, assim, sem mais nem menos, de um dia pro outro. Na mesma semana estourou uma confusão dos diabos. Tiro pra todos os lados, briga de gangue, guerra mesmo. E guerra é assim: o que mais tem é morto, a maioria pobre. Eu não arranjei ninguém pra botar no lugar de Gil. Tô trabaiando feito um condenado, com dor em tudo que é lugar. Também, não sou mais nenhum muleque.” A frustração recobriu o semblante do velho nesse momento. “Num sei o que vou fazer. Os cabras que me apareceram pro serviço ou são drogados, morrem feito baratas e me dão o trabaio de enterrá-los, ou são frouxos demais. Desse jeito, vou ser obrigado a pedir um pouco a mais do bolo da maconha pro JB.” Fez uma rápida careta de repúdio a ideia surgida. “Vixi Maria! É bom nem ficar pensando nessas coisas.”
Já podia ver o telhado antigo, telhas cor de tijolo, e as cruzes de madeira das tumbas, que circundavam a pobre casa, cingidas de branco. Nesse trecho, ambos os lados da estrada estavam tomadas por gramíneas. Havia sons emitidos por diversos insetos se misturando aos passos do cavalo e das rodas da carroça que marcavam a terra.
Absorto em seus pensamentos, Sebastião desviou o olhar, fixado na trilha até aquele momento, para o capinal a sua direita. Algumas coisas são difíceis de explicar ou entender, quando ocorrem normalmente colocamos na conta do destino. Ele enxergou, por entre as gramináceas, um tênis branco. Conforme o cabriolé adiantava, mantinha o olhar fixo no objeto. Percebeu, em dado momento, haver algo a mais do que um solitário tênis jogado na mata. Parou a sege puxando a rédea. “Pode ser alguém conhecido.” Pensou. Saltou do veículo, suas alpercatas foram cobertas, momentaneamente, pela poeira que se levantou abrupta. A camisa abotoada, cor predominante azul céu e listrada na horizontal por rosa salmão, tinha o suor marcando nas costas, porque ficou longo tempo em contato com o encosto do carro.
Abriu caminho usando os braços para afastar o mato. Andou cautelosamente. Chegou até o corpo. Encontrou-o estirado de forma estranha.  Não era possível identificar um padrão na direção dos membros. Braços, mãos, pernas e pés eram discordantes sobre o rumo a seguir. O capim, que o revestia, impedia total visualização do rosto. Era um homem. Jovem. Devia ter uns dezenove, vinte anos. Pele branca, cabelo preto, vestia uma camisa polo, negra e lisa, e uma calça jeans azul. Tinha um machucado na testa, mas já em casca.
“Xiiii! Outro presunto. Mas esse num conheço. Não pode ser daqui. Mas eita...?!” O jovem respirava. Estava tão convicto que encontraria um cadáver que de imediato não percebeu e assustou-se ao constatar.
A princípio é lógico pensar que o rapaz foi jogado nesse fim de mundo, na mata, contra a sua vontade, no entanto, com exceção do ferimento na testa, não havia lesão corporal visível e principalmente: não havia sangue, tanto no chão como nas vestes. “E se for um procurado se escondendo da pulícia? Pode achar ruim ser visto. Posso tá me arriscando.” Conjeturou. Ponderou que o mais sensato seria sair dali sem olhar para trás, porém outro pensamento o deixou indeciso. O destino. E se fosse uma resposta dos céus para atender as suas preces? “Ele tá sem arma.” Continuou meditando: “Mas pode ser uma arapuca. Os vendedor passam aqui com os bolsos cheios.” De súbito, lembrou-se da carroça, voltou o olhar para direção desta, encontrava-se intacta. Ficou dois minutos na indecisão, com o pé esquerdo apontando para o corpo e o direito para o veículo.
Seguiu o caminho do pé direito. Saiu da mata e dirigiu-se ao transporte rudimentar. Mosquitos rodeavam o cavalo incomodando-o. Cansado e com sede começava a ficar arisco. Sebastião marcou o solo com a alparca, notou um detalhe curioso: “Um solão desses e tá branquinho, branquinho.”
Pegou um pedaço de pau do aditivo que deslocava. Voltou a ficar diante do corpo, escondeu a madeira por detrás das pernas. Deu um leve chute no pé do rapaz e gritou:
-                       Oh, rapaz!
Sonolento, o jovem proferiu um resmungo e abriu os olhos para, logo após, voltar a cerrá-los com força, franzido a testa ao sentir a claridade ardente do sol. Botando a mão direita sobre a testa, protegeu-se da luz e sentou. Tentando apoiar-se, pôs a mão esquerda no chão e percebeu que acordava em terreno arenoso. Ficou sentado por uns instantes para os olhos se acostumarem à luminosidade. Percebeu, por fim, o capim ao seu redor e prestou atenção no homem a sua frente.
-                       Quem é você garoto? - Indagou Sebastião - atento a cada movimento do jovem.
-                       Eu... - interrompeu a fala, olhou interrogativo para a terra, balançando vagarosamente a cabeça. Após alguns instantes, de maneira simultânea, paralisou todo o corpo, parecendo congelar, e prendeu a respiração a soltando em seguida; espantado, fitou o velho –... Eu não sei!
-                       Não sabe?! - Perguntou Sebastião com um misto de desconcerto e desconfiança - De onde você vem? Como veio parar aqui?
O rapaz mirou o olhar para os lados, freneticamente, tentando ver algo que o fizesse lembrar alguma coisa. As perguntas o deixaram preocupado por perceber ignorar as respostas.
-                       Eu não sei. Eu não sei cara! Juro que não sei - Falava com as mãos na cabeça - Estou tentando lembrar – Fixou a visão insatisfatoriamente para Sebastião – Nada - Abaixou as mãos, estava visivelmente abalado - Que merda! Que coisa horrível. Como posso não saber quem sou?! É tão estranho, é tão angustiante, é horr... – sentiu uma forte ânsia de vômito. Aquietou-se. O estômago embrulhou, despejou de supetão um líquido amarelado da boca. Susteve as duas mãos no solo. Ficou de quatro.
Sebastião assistia a cena: “Deve estar de bucho vazio. Só botou água pra fora.” A expressão do rosto do rapaz era horrenda, os músculos da face contorciam-se, ficou vermelho e suava em abundância.  Após um período sob essas condições, começou a emitir sons horripilantes e longos, fazendo tremenda força para vomitar. Até aquele instante, o vômito era inteiramente líquido, mas algo sólido entrou em contato com o chão. Era negro e reluzente. “Mas que diacho é isso...?” Sebastião curvou-se de cócoras, defronte ao rapaz que continuava padecendo. Pegou o elemento destoante utilizando o indicador e polegar da mão esquerda. Usando a pressão das falanges, tentou esmagá-lo. Não obteve sucesso. Trouxe o objeto até a altura dos olhos e pasmou: “Minha nossa...!”

Era uma bala.


*Este é o primeiro capítulo do livro Angústia na Cidade do Caos: Crônicas de uma Era Indecente.
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